quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
QUEIMADA
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QUEIMADA
Avelina Maria Noronha de Almeida
O manto escuro
se estende
sobre montes e vales
matas e caminhos
casas e gente.
De repente
as mãos ágeis do fogo
começam a bordar
e os pontos rubros
vão se espalhando
imprevisíveis
num risco móbil.
Os primeiros traços
vão se apagando
outros vão nascendo
mais adiante.
Agora é quase
um colar flamejante
no colo arfante, lúbrico
da noite.
MINHA AVÓ
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MINHA AVÓ
Avelina Maria
Minha avó morreu?
Quem disse?
Ela todos os dias
abre a porta do meu coração
e diz: “Deus te abençoe,
minha neta!”
domingo, 5 de janeiro de 2014
CONFUSÃO
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CONFUSÃO
Os meus bisavós
iam por caminhos de pedra
e conheciam
a rota dos ventos.
Ouviam os sinais e diziam:
“O sabiá está chamando chuva!”
Quanto a mim,
perdi até a direção
do pólo magnético.
Às vezes confundo o nome das ruas
e ontem queimei papéis importantes
em praça pública.
Já houve casos em que eu não soube
ler a minha própria letra
e nem sempre percebo a diferença
entre côncavo e convexo.
Mas o pior é que perdi
o jeito de mim mesma.
sábado, 4 de janeiro de 2014
NO JARDIM
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NO JARDIM
Avelina Maria Noronha de Almeida
No doce
jardim antigo
as pétalas
dos sonhos
se abrem
perfumadas.
As folhas das árvores
sobem umas sobre as outras
brincando, ao sabor do vento,
de esconde-esconde.
O sol abraça, caloroso,
o verde das ramagens.
Uma borboleta passa
leve, tênue, graciosa,
marcando, imperceptivelmente,
o tempo que desliza...
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
TÉDIO
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TÉDIO
Avelina Maria Noronha de Almeida
Flor seca
Vento morno
Vontade morna
Calçada imunda
Caixas
abertas pelo chão
O Não É
O Não Foi
O Talvez
O Nunca Será
Túnel longo
estreito
ar rarefeito
simples ramal
com final
sem luz
De repente
na ruela suja
eu senti
o peso do mundo
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
LUTA
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LUTA
Avelina Maria Noronha de Almeida
Maria
no tanque
lava a roupa
A água
molha a testa
molha as pálpebras
molha o coração
Maria
põe a roupa
a secar
O vento bate
suave
malandro
sensual
A roupa dança
a sua brancura
negaceia
aceita
infla
desmaia
O vento
seca a roupa
seca a mágoa
seca o olhar
Maria
da janela
contempla o varal
e sorri
um sorriso
enrugado
de desafio
1694 - DATA OFICIAL DA COLONIZAÇÃO DE CONSELHEIRO LAFAIETE
Arquivo pessoal
1694
Avelina Maria Noronha de Almeida
O homem branco
se extasia.
A terra é bela,
um Campo Alegre
dos Carijós.
Descansa aqui,
aventureiro,
de tuas andanças
e buscas.
A terra que serviu de abrigo
ao índio fugitivo
será para ti
pouso e riqueza.
Ah! nau paulista,
singrando mares de verdura...
Ancoraste na pedra de manganês.
No alto do mastro
o coração escreveu:
OURO.
Chuvas,vento, sol,
a sucessão de alvoradas e poentes
desmancharão o ambiciioso vocábulo.
Porém outras e outras palavras
serão escritas,
e talvez apagadas,
até que, um dia,
o sangue do indígena,
o pigmento do negro,
o suor de teus descendentes
e o amplexo de outros povos
gravarão,
na bandeira que nos trazes,
LIBERDADE E PROGRESSO!
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